A solidão que o Estado fabrica

Maternidade Solo, Abandono Estrutural e o Cuidado como Infraestrutura Negada

Uma mulher acorda às quatro da manhã em alguma periferia brasileira, quando o sol ainda não raiou. O ônibus para o trabalho passa às cinco, e a caminhada até o ponto leva vinte minutos. Antes de sair, ela precisa deixar a criança com a vizinha ou com a mãe que mora dois quarteirões acima, se houver essa opção. Trabalha oito, dez ou doze horas, dependendo do dia. Volta à noite, já tarde. A criança dormiu ou está quase dormindo. Ela aquece o resto da comida, come em pé na cozinha apertada e cai na cama. No dia seguinte, o ciclo recomeça.

Essa rotina costuma ser chamada de resiliência. O nome errado serve a um propósito: quando a brutalidade de uma estrutura recebe o nome de uma virtude, ela se torna invisível. A necropolítica que Achille Mbembe descreveu nas colônias opera aqui no plano doméstico. O Estado organiza as condições para que ela gaste a própria vida em doses diárias, para que o filho tenha uma chance que o próprio Estado não garante. A morte que isso produz é lenta, não aparece em boletins de ocorrência nem em estatísticas de feminicídio, mas emerge das mesmas decisões políticas sobre quem merece existir plenamente e quem deve apenas durar.

O Brasil registra hoje cerca de onze milhões de famílias chefiadas por mulheres sem cônjuge. De 2012 a 2022, o número subiu de 9,3 milhões para 11 milhões, crescimento de 18% em dez anos. Sessenta e quatro por cento dessas mulheres são negras, pretas ou pardas. Cinquenta e sete por cento vivem abaixo da linha de pobreza. A pesquisa que realizei com 198 mães solo brasileiras em 2025 mostrou que as que não têm rede de apoio estável apresentam escores de depressão 82% mais altos do que as que contam com suporte contínuo. Mais da metade chega à depressão moderada ou grave. A ansiedade e o burnout seguem o mesmo padrão. O transtorno nada mais é do que resposta racional a condições irracionais.

Ariana Harwicz captura algo dessa tensão em Morra, amor: o sentimento de inadequação à maternidade, o amor que aprisiona, o desejo que racha a imagem da mãe perfeita por dentro. A maternidade no Brasil se tornou uma captura total. O Estado exige o papel, mas não o sustenta. O mercado o explora, mas não o paga. A cultura o venera, mas não o protege. Quando não há companheiro para dividir nem mesmo a aparência dessa estrutura, o que resta é a subsistência: sobreviver para que o filho tenha a chance de viver.

A Solidão como Estrutura, não como Circunstância

A maternidade solo no Brasil não é uma fase passageira entre relações, nem o resultado de escolhas mal calculadas. Ela faz parte da estrutura. Precede a ausência do pai. Existe mesmo com companheiro presente, porque o trabalho doméstico e de cuidado recai sobre as mulheres independentemente do estado civil. Heleieth Saffioti demonstrou isso décadas atrás ao analisar a divisão sexual do trabalho no capitalismo periférico: quando o companheiro vai embora, o que se revela é o esqueleto que sempre esteve ali, uma mulher que já fazia tudo, agora fazendo tudo sem nem a ilusão de apoio.

O capitalismo incorporou a subordinação feminina como condição de funcionamento, não como efeito colateral. O trabalho reprodutivo, que inclui o cuidado dos filhos, dos idosos, dos doentes, a gestão emocional do lar e a manutenção dos laços sociais, foi sistematicamente invisibilizado como trabalho precisamente porque precisava permanecer gratuito. Silvia Federici rastreou como a acumulação primitiva do capitalismo europeu dependeu da derrota das mulheres como classe, da criminalização das práticas de controle corporal e reprodutivo, da transformação da casa em fábrica não remunerada. No Brasil, essa análise exige uma camada adicional que não pode ser ignorada: a raça.

Lélia González nomeou com precisão o que chamou de matriarcado de miséria: a figura da mãe preta que cuida dos filhos brancos e dos próprios filhos simultaneamente, que sustenta famílias alheias enquanto a sua fica à deriva, que recebe o peso da responsabilidade afetiva sem receber a proteção das instituições. O cuidado vira exploração, não valorização. Reproduz a hierarquia racial sem precisar declarar a si mesmo.

A gramática muda com o tempo. A servidão doméstica se rebatiza como flexibilidade de mercado. O dever feminino se reformula como escolha individual. A estrutura, contudo, permanece. E a mulher que a carrega continua sendo, na maioria dos casos, negra, pobre e tratada como se sua situação fosse resultado de decisões que ela poderia ter tomado diferente.

A mãe solo negra periférica funciona como o último colchão do Estado antes do abismo. Quando a creche pública não tem vaga, ela resolve. Quando o sistema de saúde falha, ela resolve. Quando a escola fecha para reforma e não há alternativa, ela resolve. Quando o filho adoece e não há com quem ficar, ela falta ao trabalho para resolver, ao custo do salário, da avaliação de desempenho, às vezes do emprego. Resolve até o limite. Até adoecer. Até desaparecer do mercado de trabalho. Até o filho crescer para repetir o ciclo ou, com sorte, romper com ele, ao custo do que a mãe gastou de si mesma. Um custo que o sistema absorve como dado normal de funcionamento, sem jamais registrá-lo como sinal de falha.

O Pacto que Organiza a Invisibilidade

Cida Bento analisa em O Pacto da Branquitude como as instituições brasileiras funcionam por acordos tácitos que nunca precisam ser escritos para funcionar. O silêncio sobre raça nas organizações, a naturalização da ausência de negros em posições de poder, a cumplicidade entre brancos que se protegem mutuamente sem coordenação explícita. O pacto não é conspiração. É uma gramática cultural absorvida por quem se beneficia dela sem precisar reconhecer o benefício.

Esse pacto age com crueldade sobre as mães solo negras, e se manifesta de uma forma que vale examinar com cuidado: no julgamento de outras mulheres. Em grupos de mães de baixa renda, mulheres brancas com condições materiais similares às de mulheres negras da mesma comunidade frequentemente descrevem essas mães como desinteressadas na educação dos filhos, como quem prefere a rua às atividades gratuitas disponíveis. Falam em direitos iguais, em oportunidades acessíveis a todos. A pergunta implícita é sempre a mesma: por que elas não aproveitam?

O Programa Guri, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, ilustra com clareza o equívoco que sustenta esse julgamento. O maior programa sociocultural brasileiro, gratuito, presente em quase quatrocentos polos no estado, oferece aulas de música, coral e instrumentos para crianças e adolescentes de seis a dezoito anos. A condição de acesso é simples: frequência regular à escola e um responsável que faça a matrícula e leve a criança. O programa funciona, de acordo com sua própria descrição oficial, em períodos de contraturno escolar.

Contraturno pressupõe disponibilidade. Para levar uma criança ao polo do Guri durante a semana, o responsável precisa estar livre nos horários em que a criança não está na escola, o que significa manhã ou tarde, dependendo do turno. Para acompanhar as apresentações abertas ao público e os momentos de integração familiar que consolidam o vínculo da criança com o programa, é preciso aparecer em datas e horários que variam ao longo do ano. Para uma mãe que sai de casa às quatro da manhã, passa quatro horas por dia no transporte público, trabalha dez horas e volta à noite com o filho já dormindo, essa aritmética não fecha. O programa não foi projetado para ela. Foi projetado para uma mãe com disponibilidade diurna, o que, no Brasil de hoje, significa uma mãe com algum grau de estabilidade que a maioria das mulheres negras periféricas não tem.

As mães brancas na mesma comunidade que conseguem participar com mais regularidade não o fazem porque seus valores em relação à educação dos filhos sejam superiores. O fazem porque têm, em média, um pouco mais de flexibilidade de jornada, uma rede informal ligeiramente maior para dividir o transporte da criança em horários específicos, uma posição marginal mas real de menor precariedade que o pacto distribui de forma racialmente assimétrica, mesmo entre as pobres. A diferença não está na vontade. Está na posição que cada uma ocupa numa estrutura que nenhuma delas escolheu.

Byung-Chul Han, ao descrever a sociedade do desempenho, identifica um mecanismo específico de dominação: o sujeito que internalizou a exploração a tal ponto que não consegue mais distinguir entre o que quer e o que foi condicionado a querer. Torna-se, simultaneamente, o escravo e o senhor de si mesmo. A mãe solo que trabalha doze horas por dia convencida de que precisa se esforçar mais opera nesse mecanismo. A mãe branca que julga a negra por não comparecer às apresentações do Guri também: ela absorveu um sistema que cobra responsabilidade sem distribuir condições, e aprendeu a enxergar o fracasso onde existe impossibilidade. O pacto não precisa de intenção para funcionar. Precisa apenas de pessoas que não façam as perguntas certas.

Redes de Apoio como Infraestrutura Pública Negada

O dado mais importante que emerge da pesquisa com mães solo não é o tamanho da crise de saúde mental, embora ela seja grave e documentada. É o que a contém. Redes de apoio estáveis, presentes há mais de três anos, reduzem os índices de depressão em 45% e o absenteísmo no trabalho em 62%. Essas redes não são programas governamentais nem plataformas digitais. São mães, irmãs, amigas, vizinhas, comunidades religiosas: mulheres cuidando de mulheres, informalmente, sem remuneração, sem reconhecimento institucional, muitas vezes no limite da própria exaustão.

Oitenta e dois por cento das mães entrevistadas identificaram o suporte emocional como o tipo mais frequente de apoio recebido: alguém que escuta, que valida, que não minimiza. Sessenta e quatro por cento recebem ajuda prática com tarefas concretas que a falta de tempo impede, como buscar a criança na escola, ficar com ela quando a mãe adoece ou ajudar com o dever de casa. Apenas doze por cento têm acesso a redes de advocacia coletiva, grupos organizados que reconhecem suas demandas como demandas políticas e agem a partir delas.

As mães construíram o sistema de suporte que o Estado não forneceu. Fizeram isso gratuitamente, nos interstícios de vidas já saturadas de demandas, nos intervalos entre jornadas que não deixam espaço para nada além do necessário. Peter Kropotkin documentou, no início do século passado, como a cooperação mútua é o principal fator de sobrevivência em condições adversas. Não a competição darwinista, mas a ajuda recíproca. O que as mães solo fazem entre si é exatamente isso: uma infraestrutura de apoio mútuo construída sobre a ausência de infraestrutura pública.

O problema é que essa infraestrutura é frágil por definição. Quarenta e sete por cento das mães que têm uma rede de apoio relataram preocupação intensa com o que aconteceria se a pessoa de referência adoecesse, mudasse de bairro ou morresse. A rede não é uma escolha estruturada. É uma gambiarra sofisticada que funciona enquanto as condições que a sustentam persistem. Quando quebra, o impacto é imediato e mensurável: a diferença salarial acumulada ao longo de trinta anos de carreira entre uma mãe solo com apoio estável e uma sem apoio chega a R$162 mil, resultado das interrupções forçadas, dos afastamentos por adoecimento, das reduções de carga horária para dar conta do cuidado e dos empregos abandonados por impossibilidade de conciliação. Para mães de filhos com autismo ou deficiência intelectual que não têm rede de apoio, a perda acumulada ao longo da vida profissional chega a R$594 mil, porque o cuidado atípico consome 12 a 18 horas diárias e a saída do mercado formal é quase inevitável.

O risco de crise de saúde mental para mães de filhos com autismo ou deficiência intelectual sem rede de apoio é 5,2 vezes maior do que para mães de filhos típicos com suporte. Cem por cento das que se encaixam nesse perfil, na amostra da pesquisa, apresentaram depressão moderada a grave. Noventa e cinco por cento, ansiedade no mesmo nível. São números que deveriam mobilizar política pública de emergência. O que mobilizam, na prática, são encaminhamentos para terapia individual e orientações sobre autocuidado.

Angela Davis argumentou que a socialização do cuidado, a creche pública universal e o suporte coletivo à criação dos filhos não são demandas radicais ou utópicas. São a condição mínima para que mulheres existam como sujeitos, não apenas como reprodutoras da força de trabalho alheia. No Brasil, 57% das crianças de zero a três anos não têm acesso à creche pública. A demanda reprimida é imensa, a oferta é estruturalmente insuficiente, e quem paga o custo dessa insuficiência são as mesmas mulheres que o sistema já exauriu por todos os outros caminhos disponíveis.

Plataformas que Não Viram Ela Entrar

A proliferação de aplicativos de saúde mental, plataformas de bem-estar corporativo e soluções digitais de cuidado psicológico criou, nos últimos anos, uma ilusão de oferta. Existem mais ferramentas disponíveis do que nunca para tratar o sofrimento psíquico. A maioria delas foi construída pressupondo um usuário que não é a mãe solo negra que sai de casa às quatro da manhã.

O modelo dominante é o da consulta terapêutica individual mediada por tecnologia. A mulher tem um problema de saúde mental. Ela baixa um aplicativo. Ela se conecta com um terapeuta. Ela trabalha a ansiedade em sessões semanais de cinquenta minutos, preferencialmente no mesmo horário, com a mesma profissional, construindo um vínculo que pressupõe continuidade, regularidade e uma relação suficientemente estável com o próprio sofrimento para nomeá-lo e levá-lo a um consultório virtual. É um modelo construído sobre o arquétipo do sujeito liberal: autônomo, com agenda gerenciável, capaz de investir sistematicamente em si mesmo, portador de uma subjetividade educada a nomear estados internos e buscar ajuda.

A mãe solo na periferia tem a conectividade precária de um pacote de dados insuficiente para chamadas de vídeo estáveis. Tem o tempo cronometrado entre jornadas que não deixam margem para horários fixos semanais. Tem um histórico nos serviços de saúde em que a dor dela foi minimizada ou patologizada sem contexto. Tem uma relação com o próprio sofrimento moldada por anos de ter que minimizá-lo para continuar funcionando, porque parar não é opção quando não existe rede que absorva o impacto. Quando ela chega a um serviço de saúde mental, ela não chega como sujeito em busca de crescimento. Chega no limite, e o modelo não foi projetado para esse ponto de entrada.

O sistema de saúde mental individual a trata como se o problema estivesse dentro dela. A pesquisa mostra o contrário: o problema está ao redor dela. A depressão não é traço de personalidade nem fragilidade genética. É resposta ao isolamento, à exaustão crônica, à impossibilidade de cuidar de si porque todos os recursos disponíveis precisam ser direcionados para cuidar de outros que dependem exclusivamente dela. O burnout não é fraqueza individual. É o produto de uma estrutura que exige tudo e não oferece nada.

Há algo politicamente significativo na escala com que o modelo terapêutico individual se expandiu exatamente enquanto o Estado recuava na provisão de cuidado coletivo. Quanto mais o suporte social se fragmenta e se privatiza, mais o sofrimento se individualiza. A terapia, que pode ser ferramenta genuinamente transformadora, é capturada nesse movimento e ressignificada como gerenciamento do eu, como otimização da capacidade de suportar condições que não deveriam ser suportadas. Han identificou esse mecanismo com precisão: o sujeito que se auto explora é mais eficiente e mais dócil do que o sujeito explorado externamente. Não precisa de supervisor. Supervisiona-se. Não precisa de punição. Pune-se internamente quando fica aquém do que o sistema exige.

A mãe solo encaminhada para a terapia como solução principal recebe, implicitamente, a mensagem de que a falha está nela, não nas condições que ela enfrenta. Uma solução individual em uma vida sem margem não é cuidado. É crueldade com outro nome. A abordagem centrada na sociedade parte de uma pergunta diferente: não “como tratar a depressão dessa mulher?” mas “que condições estruturais produziram essa depressão, e como alterá-las?” A diferença não é semântica. É a diferença entre um aplicativo de mindfulness para uma mãe que dorme quatro horas por noite e uma política de creche universal que permite que ela durma.

Quando o Corpo Adoece, o Sistema Contabiliza

Em 2024, o INSS registrou 472 mil afastamentos por transtornos mentais no Brasil, aumento de 68% em relação a 2021. Sessenta e quatro por cento dos afastamentos foram de mulheres, com ansiedade, depressão e estresse entre as categorias mais frequentes. Os números mostram o custo humano de um modelo econômico que precifica o cuidado como gratuito porque sempre foi realizado por mulheres sem remuneração. Quando o corpo finalmente recusa as condições impostas, isso aparece na estatística previdenciária como dado epidemiológico, nunca como evidência de uma política pública que falhou.

A violência doméstica leva uma parcela significativa de mulheres à maternidade solo, e esse caminho deixa marcas que o mercado de trabalho não reconhece e o sistema de saúde raramente trata em sua raiz. Dados do IPEA baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostram que 52,2% das mulheres economicamente ativas já sofreram violência doméstica ou familiar, contra 24,9% das inativas: uma taxa praticamente duas vezes maior entre as que participam do mercado de trabalho. A relação é complexa. A autonomia financeira pode ameaçar o controle do agressor e intensificar a violência. Sair da relação violenta frequentemente significa partir sem renda estável, com a rede de apoio destruída pelo isolamento que o agressor impôs ao longo dos anos e com o histórico de emprego fragmentado por períodos em que trabalhar não era possível. O adoecimento mental que os dados do INSS capturam, nesses casos, é um processo em curso, alimentado por condições que continuam ativas, não o vestígio de um passado encerrado.

O mercado de trabalho adiciona sua própria camada de penalização. A mãe solo que falta porque o filho ficou doente, que chega atrasada porque o transporte falhou ou o acordo com a vizinha não funcionou naquele dia, que pede para sair mais cedo porque a creche fecha às seis, é percebida como funcionária problemática e pouco comprometida. A estrutura que a coloca nessa posição não é questionada. O custo do cuidado se individualiza sobre ela: demissão por baixo desempenho, pedido de demissão por exaustão, retorno à informalidade, que é menos exigente no horário, mas não oferece proteção trabalhista nem previdência. Mais vulnerabilidade, menos renda, mais dependência das redes informais que já estão no limite. O ciclo se fecha sempre sobre o mesmo ponto.

A intersecção de raça agrava tudo de forma que os dados tornam incontornável. Mães solo negras recebem, em média, 32% menos do que mães solo brancas em condições de emprego similares. Projetada sobre trinta anos de carreira, essa diferença representa centenas de milhares de reais em renda acumulada perdida, uma base já fraturada sobre a qual ainda recai a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado. É sobre essa equação que Mbembe faz a pergunta que mais incomoda: quem tem o poder de determinar quem pode viver plenamente e quem deve apenas durar? A resposta, no contexto brasileiro, não exige investigação demorada. Ela está nas políticas com horários incompatíveis com as jornadas das mais pobres, nos programas culturais projetados para mães com disponibilidade diurna, nas soluções de saúde mental individuais para problemas coletivos, nos afastamentos contabilizados como dado estatístico sem consequência política. Deixar morrer por negligência deliberada, por design.

O que Precisaria Mudar

O diagnóstico existe há décadas, formulado por pesquisadoras, ativistas e pelas próprias mães que vivem o que os dados descrevem. Creche universal, licença parental equânime, flexibilidade laboral com proteção legal, saúde mental comunitária em vez de individual. O problema não é a falta de análise. É a ausência de prioridade política para um grupo que não tem representação proporcional ao seu peso social e econômico.

Mas há algo anterior às políticas específicas, que é a gramática com que o problema é enquadrado. Enquanto a maternidade solo for tratada como uma vulnerabilidade individual, como um estado transitório que requer intervenção assistencial até que a mulher se reestruture, as políticas que emergem serão paliativas por design: oferecem cestas básicas onde são necessárias creches, encaminham para terapia onde são necessárias as condições para não adoecer.

O cuidado é infraestrutura. Essa afirmação tem consequências práticas concretas. Infraestrutura é investimento público permanente, não caridade sazonal nem programa de governo sujeito a cortes no próximo ciclo eleitoral. É aqueduto. É rede elétrica. É o que sustenta tudo o mais. Sem o trabalho de cuidado, nenhuma outra atividade econômica acontece: a criança que não foi cuidada não vai à escola; a que foi à escola sem alimentação adequada não aprende; a que aprendeu mas cresceu sob estresse crônico carrega no corpo o custo de uma infância sem segurança emocional. Quando o Estado terceiriza esse trabalho para as redes femininas informais e o chama de capital social, de solidariedade comunitária ou de vocação matriarcal, está fazendo exatamente o que Federici descreveu: expropriando trabalho e apresentando a expropriação como naturalidade.

Há, ainda, um reconhecimento que precisa vir antes de qualquer política específica. O trabalho de cuidado precisa ser reconhecido como trabalho para poder ser remunerado, protegido e distribuído de forma mais justa. Enquanto for tratado como expressão de amor materno ou vocação feminina, continuará invisível na contabilidade nacional, ausente das negociações trabalhistas e ignorado nos cálculos de produtividade e crescimento. Mas ele sustenta tudo. Sem ele, a economia que o país orgulhosamente contabiliza não existiria.

As mães com quem conversei ao longo da pesquisa não pediram reconhecimento abstrato nem celebração da sua força. Pediram condições. Creche pública com horário compatível com suas jornadas reais, não com jornadas idealizadas. Flexibilidade laboral sem penalização salarial ou de carreira. Programas culturais e educativos nos fins de semana, quando elas podem existir no tempo dos filhos. Licença de saúde mental distinta da licença médica convencional. Redes de cuidado coletivo institucionalizadas, que não dependam da boa vontade de uma vizinha já esgotada e igualmente sem suporte. Pediram o direito de não ter que sobreviver para que o filho possa viver. O direito de viver também.

Que esses pedidos virem política de Estado depende de uma decisão coletiva sobre o que a sociedade considera infraestrutura essencial. Estradas, sim. Energia elétrica, sim. O trabalho que reproduz a vida e mantém a sociedade funcionando? Sobre isso, o silêncio ainda dura.

O Que os Dados Não Capturam

Harwicz escreveu sobre o aprisionamento. Lélia González escreveu sobre o matriarcado de miséria. Federici escreveu sobre a expropriação do cuidado. Mbembe escreveu sobre quem o poder deixa morrer. Cida Bento escreveu sobre os pactos que sustentam a desigualdade sem precisar assiná-la. São textos que descrevem a mesma mulher em idiomas teóricos distintos, a partir de geografias diferentes da injustiça.

Ela acorda às quatro da manhã. Deixa o filho com a vizinha. Pega o ônibus. Trabalha. Volta. O filho já dormiu. Ela aquece o que sobrou, come em pé, dorme. Repete. Em algum momento entre o acordar e o dormir, ela não pensa em necropolítica nem em matriarcado de miséria. Pensa se consegue pagar a conta de luz, se a criança está com febre, se a vizinha pode ficar amanhã também. O pensamento teórico é privilégio de quem tem tempo para pensar. Ela sobrevive.

E enquanto ela sobrevive, o sistema a contabiliza como dado de empregabilidade, como estatística de participação econômica, como evidência de que o mercado de trabalho está funcionando.

O sistema funciona exatamente como foi projetado. Essa é a questão.


Rafael Cavalcante Lima é pesquisador em Society-Centered Design. Em 2025, conduziu estudo empírico com mães solo brasileiras sobre saúde mental, precariedade laboral e redes de apoio.

Referências

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HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: O Neoliberalismo e as Novas Técnicas de Poder. Lisboa: Relógio D’Água, 2015.

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KROPOTKIN, Piotr. Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução. São Paulo: A Senhora Editora, 2021.

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