Teus vícios em mim

Como pode nascer uma vez,

e nasce bonita desse jeito?

Não tem gramática que explique,

só o espanto bom de te olhar.

E às vezes eu falo errado de propósito,

te chamo de menas perfeita,

barbarismo safado,

porque se digo “mais perfeita”,

a língua não dá conta do exagero que tu é.

E faz dias que não vejo ele — teu sorriso,

solecismo na garganta,

mas o que importa é que sinto tua falta

do mesmo jeito.

Às vezes é ambíguo:

não sei se amo teu corpo ou tua alma,

mas tanto faz — quero os dois,

sem tradução.

Tento explicar e só sai obscuridade,

palavra enrolada, frase torta.

Não é que não sei falar,

é que teu nome me embaralha.

Quero subir pra cima do mundo contigo,

descer pra baixo do medo,

entrar pra dentro da tua vida,

pleonasmo, eu sei,

mas repito porque é infinito.

“A gente vai” — cacofonia besta,

mas contigo até som feio

vira canção de boteco.

Se exagero no preciosismo,

te chamando de musa, de deusa,

não ri: é só meu jeito tosco

de dizer que tu é tudo.

Baby, sweetheart, forever —

estrangeirismo bobo,

mas tu entende:

sou teu até no idioma errado.

E sigo no gerundismo,

vou estar te amando, vou estar te beijando,

vou estar te vivendo,

mesmo depois do fim.

Ó, minha donzela antiga,

meu arcaísmo vivo,

se vossa mercê quiser,

eu fico pra sempre.

E no plebeísmo eu confesso:

mano, tu é mó barato,

rolê que não acaba,

vício que não quero largar.

Amor e eu — hiato sem solução,

até que teu beijo junta

duas vogais que viram só uma.

E tanto tanto te quero,

que tropeço na colisão das palavras,

mas se tropeço em ti,

caio feliz.

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